Villa Santo Aleixo
Histórico do Monumento
A Villa Santo Aleixo está localizada na cidade de Taubaté e foi construída aproximadamente em 1872, para ser residência do Senador Joaquim Lopes Chaves, grande figura política paulista. Em 1920, passou a ser a residência de Cardeal Arco Verde, devoto de Santo Aleixo, razão pela qual o imóvel recebeu o nome de Villa Santo Aleixo. Com o passar dos anos, o local ficou totalmente abandonado e em estado avançado de degradação.
Construída no final do século XIX, a Villa Santo Aleixo era conhecida como Challet Lopes Chaves por ser a residência urbana do fazendeiro e político Lopes Chaves e de sua esposa, Cândida Augusta Marcondes.
Para Livia Vierno, doutora em Arquitetura e Urbanismo, em seu texto Villa Santo Aleixo: uma casa eclética no Vale do Paraíba, a qualificação da casa como chalé se deveu ao seu isolamento no centro do terreno e, principalmente, ao seu acabamento romântico, com varandas e terraços, rodeada por um jardim ornamental que se destacava em meio à grande totalidade de residências geminadas da cidade.
A Villa Santo Aleixo é uma construção em alvenaria estrutural de tijolos de barro cozido e coberta por telhas de barro do tipo francesa, condizente com as técnicas de construção do final do século 19 e início do século 20. O conjunto arquitetônico, localizado em um terreno de dois mil metros quadrados com grande área verde, é formado por um casarão e alguns anexos em ruínas, anteriormente utilizados como residências de funcionários e funcionárias.
O Restauro
As fachadas apresentavam manchas de umidade, trincas e fissuras, sinais de vandalismo, desplacamento de argamassa e pintura, fungos e mofos, crostas negras, manchas esverdeadas e intervenções grotescas nas fachadas. Os primeiros serviços se concentraram justamente na limpeza das fachadas com hidrojateamento.
A cobertura das construções não possuíam forro algum e o seu restauro foi amplo, abrangendo toda a estrutura de madeira do telhado, instalação de mantas termoacústicas e forros. Foram executados novos pisos em cimento queimado e nas áreas molhadas, piso cerâmico.
Em pouco tempo, a Villa Santo Aleixo se desfez de uma imagem de extremo abandono para recuperar os ares de residência imponente dos anos 1920, quando abrigava o Cardeal Arco Verde, devoto de Santo Aleixo, razão pela qual o imóvel recebeu o mesmo nome. A platibanda juntamente com a cimalha e toda ornamentação existente na fachada lateral direita da edificação haviam ruído e sofreram uma drástica intervenção, que retirou os detalhes ornamentais originais, ficando uma estrutura lisa. Os moradores antigos da vizinhança se lembraram desse episódio e relataram o acontecido. Assim, para reproduzi-las, a equipe da Biapó tomou como base as ornamentações remanescentes das outras fachadas, feitas em moldes de PVC e madeira, popularmente conhecidos como “carrinhos”. Outro desafio foi recolocar o forro de madeira, devido a inexistência de resquícios originais, exceto pelo forro do ambiente 12, que orientou o projeto do desenho original em estilo eclético do casarão do século XIX, feito em tábuas de cedrinho.
Boa parte das esquadrias estava em péssimo estado, empenadas, com ferragens danificadas e diversas peças apodrecidas devido à umidade, por isso não puderam ser reaproveitadas, decapadas e restauradas. Novas peças, idênticas às originais em madeira e vidro, foram fabricadas e recolocadas nos devidos lugares.
Todas as janelas têm desenhos semelhantes, com quatro folhas, sendo as internas cegas e as externas em veneziana com vidro. As portas seguem o mesmo estilo e a tipologia de folhas, com bandeira fixa em madeira e vidro.
O processo de recuperação do casarão foi acompanhado pela equipe da Secretaria de Cultura e respeitou o memorial descritivo exposto no edital, que previa a manutenção das características originais do local. A obra foi prorrogada por mais quatro meses para realização de novos serviços.
Novas instalações elétricas e hidrossanitárias foram excutadas, e serviços na área externa referentes ao paisagismo e à estruturação de canteiros drenantes.
Um dos fatos mais interessantes dessa obra ocorreu no momento da restauração das paredes do salão principal do casarão, quando, a partir da abertura de janelas de prospecção, foram descobertos uma paisagem cobrindo as quatro paredes, um barrado de bandeirolas próximo ao teto e pássaros voando em um céu azul. Como o projeto previa a decapagem de apenas uma parede desse espaço, as outras três foram cobertas por uma mão de tinta, não sendo possível identificar a totalidade do desenho. Segundo a restauradora Luciene Hiromi Akaboshi, as pinturas artísticas resgatadas no processo de restauro dessa sala passaram por etapas distintas. A intervenção feita no rodaforro foi mais simples, do ponto de vista das intervenções realizadas de decapagem, nivelamento de lacunas e reintegração cromática das bandeirolas, apesar das lacunas da nova argamassa. “Foi bem difícil remover as camadas posteriores que encontramos sobre a paisagem e sobre o rodameio, pois estavam muito rígidas e de certa forma se fundiram com a camada original, acarretando perdas de referências existentes”, conta.
Na única parede decapada, é possível ver duas casinhas, um lago, um homem com uma bengala, um bambuzal de um lado e araucárias de outro. As tonalidades do céu sugerem um pôr do sol, que foi restaurado, assim como o barrado completo que circunda as quatro paredes. “A restauração artística da paisagem foi um processo lento, com uso do bisturi. Após estudar a obra, analisar todo seu contexto, conseguimos entregar o melhor possível, respeitando sempre as características originais do patrimônio histórico”, relata Luciene. Ao lado do salão principal, em outro ambiente, eram visíveis e evidentes as pinturas em todas as paredes, e, mais uma vez, a mesma situação se repetiu. No entanto, apesar do projeto apenas prever a decapagem e recuperação de uma parede, determinando que as outras fossem pintadas de branco, a equipe de restauro assumiu o trabalho de recuperação para evitar o apagamento das obras artísticas encontradas. As grandes pinturas de estamparias e quadros de paisagens, como se
estivessem pendurados no alto, perto do teto, foram recuperados e pintados.
O trabalho meticuloso de recomposição das estamparias foi feito por meio da técnica estêncil, refazendo, inclusive, partes que já estavam bem desbotadas. “As pinturas localizadas na parte superior das esquadrias se encontravam em bom estado de conservação, apesar de algumas fissuras, da necessidade de higienização e retoques na camada pictórica. Já as paredes em estêncil estavam muito porosas, com perdas tanto do desenho como de camadas pontuais, por consequência de furos de pregos, parafusos, arranhões e fissuras. Tratamos essas partes consolidando a pintura, nivelando as lacunas e trazendo a leitura com a complementação das partes do desenho refeitas com moldes de estêncil. Foi muito bom poder resgatar a história de mais um patrimônio nestes meus 24 anos como restauradora”, complementa.
Ficha técnica
Localização: Taubaté (SP)
Período de restauração: Abril/2023 a agosto/2024
Data de construção: 1872
Obras de restauração: Arquitetônica e artística
