UniRio . Centro de Ciências Jurídicas e Políticas
Histórico do Monumento
Durante a investigação feita para as ações de restauração do prédio principal do Centro de Ciências Jurídicas e Políticas da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UniRio), conhecido também como casarão, não foram encontrados documentos nos acervos pesquisados que indiquem a data precisa de construção do edifício. Mas, de acordo com o Guia do Patrimônio Cultural da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro (PCRJ) de 1996, o prédio principal da Rua Voluntários da Pátria, n° 107, foi construído em 1897. A data foi atribuída ao imóvel por causa da inscrição em um medalhão constante do edifício.
A pesquisa realizada pela professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (FAU/UFRJ), arquiteta Maria Paula Albernaz, com apoio da estudante Aline Morgado, da mesma instituição, revela que o edifício foi pensado para servir de residência ao comerciante, representante no Brasil da empresa American Coal Exporting Co, E. E. Bechtinger.
Nas primeiras décadas de sua ocupação, foi mantida sua destinação original residencial. A partir de 1936, seu uso passou a ser institucional, tornando-se propriedade da instituição filantrópica Casa da Criança, que alugava parte do imóvel à Diretoria de Proteção à Maternidade e à Infância do então Ministério da Educação e Saúde Pública.
Ainda que tenham ocorrido inúmeras transformações urbanísticas e arquitetônicas na Rua Voluntários da Pátria, alguns exemplares como o prédio da UniRio foram tombados, em 1990, para serem preservados e contribuírem para rememorar os primórdios da história do bairro de Botafogo. Mas, em sua maioria, os acréscimos arquitetônicos ocorridos ao longo dos anos deturparam completamente o conjunto original. A área acrescida, composta por pavilhões diversos, de diferentes composições estéticas e sistemas construtivos, gerou um desequilíbrio entre as massas do bem tombado e das construções acrescidas ao longo do tempo. Por isso, a edificação eclética ainda se destaca em termos de imagem arquitetônica na paisagem urbana. A volumetria da antiga casa e seus ornamentos sobressaem contra o pano de fundo da arquitetura anônima das construções adjacentes.
O Restauro
A proposta da direção da UniRio foi modernizar as áreas da administração central e transformar o restante do edifício em espaços simbólicos do Centro, como auditórios, salas de reunião e setores dedicados ao núcleo de pós-graduação. Sua localização é privilegiada, na Rua Voluntários da Pátria, eixo estruturante do bairro Botafogo.
A análise do estado de conservação da edificação mostrou não existir patologias estruturais que comprometiam as alvenarias autoportantes e sua estabilidade. Entretanto, os demais componentes (estruturas metálicas, paredes de estuque estruturado, pisos, forros, coberturas) encontravam-se em avançado estado de degradação.
Os danos foram provocados, especialmente, por infiltrações de águas pluviais no telhado. Devido à falta de impermeabilização adequada de calhas periféricas, os tubos de coleta de águas da chuva não estavam funcionando adequadamente, permitindo escape nas paredes e fachadas. O resultado foi o surgimento de diversas patologias advindas desta situação. A umidade elevada no interior da edificação ainda contribuiu para o surgimento de fungos e insetos xilófagos. Elementos de madeira expostos a intempéries também foram muito danificados.
As diversas intervenções feitas ao longo do tempo descaracterizaram sua arquitetura original. Diante disso, o projeto de restauração considerou a necessidade de recuperar os elementos construtivos originais, resgatar os rudimentos degradados, recompor o que foi depredado ou removido. Todos os esforços são para manter a autenticidade e a integridade de elementos remanescentes, de vestígios dos sistemas construtivos e estéticos de uma época. Além de recuperar a imagem deste monumento da arquitetura eclética carioca, testemunho de um período de profundas e significativas transformações urbanas na cidade do Rio de Janeiro, foram adotadas medidas eficazes para manutenção preventiva e periódica com a finalidade de evitar que a edificação entrasse novamente em colapso. Apesar de estar cercado de construções de grande densidade e altura, o edifício se destaca tanto por sua localização espacial, no centro do terreno e recuado, como por suas características estilísticas, com traços de um ecletismo sóbrio e contido.
Os processos de restauro incluíram elementos como teto metálico, laje, piso, telhado, forro, esquadrias e gradis dos guarda-corpos das varandas e fachadas, além do restauro da pintura marmorizada situada na varanda do edifício. Na área da varanda, na entrada principal do edifício, foi feita a decapagem manual das camadas de repinturas que sobrepunham a camada pictórica original. Após esse processo, foi realizada a consolidação com consolidante líquido em pontos onde houve necessidade de fixação para posterior nivelamento das áreas onde a argamassa sofreu deterioração. A reintegração policromática das áreas de perdas foram realizadas por meio do tracejado manual, praticamente idêntico à tonalidade original.
Ornatos, frisos e consoles nas fachadas também passaram por processo de restauração, com decapagem manual e tratamento de trincas existentes. Moldes para fabricação de peças iguais às originais foram reconstruídos e deram origem a novos elementos instalados após os acabamentos finais. Ainda, foi realizada a aplicação de massa nos pontos onde houve necessidade de substituição do chapisco, emboço e reboco, antes da aplicação da primeira demão de pintura. Também foi realizado o serviço de infraestrutura do elevador interno.
Ficha técnica
Localização: Rio de Janeiro (RJ)
Período de restauração: Junho/2023 a junho/2025
Data de construção: 1897
Proteções existentes: Tombamento municipal
Obras de restauração: Arquitetônica
Registro fotográfico: Marcos Reis
