Ruínas da Igreja de São José da Boa Morte
Histórico do Monumento
Tombada pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac) em 1989, a igreja foi erguida em uma pequena elevação, de frente para estrada de chão batido que dá acesso à Rodovia RJ-122, que liga o Rio de Janeiro a Nova Friburgo. O lugar tem origem na antiga Freguesia de Santo Antônio de Casserebu, na Fazenda São José, em uma área de assentamento do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), doada aos jesuítas em 1571 a partir de uma sesmaria (lote de terra distribuído pelo rei de Portugal). A região, rica em cana-de-açúcar, alimentos e madeira, prosperou e foi elevada à Vila de Santo Antônio de Sá. Após sucessivas transferências da sede da vila, em 1923, foi movida para Cachoeiras de Macacu, que se tornou cidade em 1929.
O sítio arqueológico preserva os vestígios de uma antiga igreja erguida por volta de 1734 pela Irmandade de São José da Boa Morte. Originalmente construído em pau a pique, o templo foi reformado em 1794 durante a visita de monsenhor Pizarro, que sugeriu a construção de uma nova estrutura em pedra e cal, especialmente no altar-mor. Durante os séculos XVIII e XIX, o local funcionou como espaço de culto, devoção e acolhimento espiritual, especialmente para pessoas que enfrentavam os últimos momentos de suas vidas. A tradição ganhou ainda mais força durante os surtos de malária que atingiram a região no século XIX. Muitos moradores acreditavam que, ao serem enterrados ali, poderiam morrer em paz, seguindo o exemplo de São José. Essa prática se manteve até 1850, quando uma nova legislação imperial proibiu 2 sepultamentos no interior das igrejas, encerrando oficialmente o costume.
A fazenda onde a igreja está localizada teve sua história marcada por sucessivas epidemias e esvaziamento da região. Após erradicação da malária, na década de 1940, a área foi valorizada e entrou em disputa entre latifundiários e camponeses. Com 4.828 hectares, a estância foi reivindicada pela família Cunha Bueno nos anos 1950 e, em 1964, desapropriada para reforma agrária pelo presidente João Goulart. No entanto, a partir do golpe militar, processos da reforma agrária foram interrompidos, e a terra foi devolvida aos antigos proprietários da AgroBrasil Empreendimentos Rurais, permanecendo inexplorada até 1979, quando 120 trabalhadores rurais ocuparam a terra e começaram a cultivá-la. Em janeiro de 1980, a ocupação foi reprimida pela polícia militar, com a prisão de 89 pessoas. Esse episódio deu início a uma intensa mobilização pela desapropriação da fazenda. Em dezembro de 1980, cerca de 500 trabalhadores rurais se concentraram na sede do Incra no Rio de Janeiro, forçando o governo de João Figueiredo a desapropriar 4.828 hectares da fazenda. Desde então, no dia 23 de janeiro de cada ano, a comunidade realiza uma festa e uma missa nas ruínas da Igreja de São José da Boa Morte para celebrar a data da desapropriação. Ao todo, são cerca de 380 famílias assentadas que podem se beneficiar com a preservação histórica da edificação, já que o aumento do fluxo de pessoas garante maior comercialização de produtos locais e incremento do turismo com a mais nova opção cultural.
O sistema construtivo da igreja é misto, com alvenaria de pedra e tijolos cerâmicos maciços, caracterizado pelo uso de blocos de pedras irregulares. A técnica da junta seca embrechada foi empregada para unir as pedras, sendo as menores, geralmente lascadas, utilizadas para travar as maiores. As paredes são autoportantes, ou seja, podem se sustentar por conta própria sem a necessidade de estruturas de suporte adicionais. Essas características são típicas dos métodos construtivos da arquitetura do século XVIII, o que fornece uma visão do passado histórico da região. O revestimento da estrutura está descascado e existem buracos nas alvenarias em alguns pontos. Na parede esquerda da nave central, há vestígios de um antigo púlpito. Nos três nichos onde as paredes são mais delgadas, formam um arco, com duas portas na lateral direita e vestígios de mais três portas laterais. Os ornamentos da igreja estão em bom estado, com destaque para pia batismal de madeira e vasos com âmbulas (recipientes litúrgicos) para os santos óleos. A parte superior da nave do altar principal é a única parte da igreja que apresenta marcas de forro. Também há evidências de que o piso era em mármore, e as paredes internas, revestidas até meia altura, em cerâmica azul. O chão, atualmente, é em terra. A estrutura original está um pouco abalada, com rachaduras em alguns trechos, infestação de vegetação e descascamento de reboco e emboço. A cobertura da edificação não resistiu aos danos sofridos e não há vestígios de sua materialidade.
O Restauro
A Construtora Biapó, contratada pela Elysium Sociedade Cultural, executou os trabalhos de restauro e preservação das ruínas da Igreja de São José da Boa Morte, um remanescente da arquitetura religiosa do século XVIII. O projeto previu pesquisa histórica, diagnóstico do estado de conservação e propostas de consolidação e incorporação de novos usos voltados ao turismo, ao lazer e à produção econômica da população.
A igreja preserva elementos importantes da arquitetura original, como a nave central, partes da torre lateral, a fachada com portal em forma de óculo, janelas altas com vergas curvas e a capela-mor, localizada na extremidade posterior do edifício. O princípio fundamental do projeto é preservar a autenticidade da construção, respeitando sua integridade material e valor simbólico. Isso inclui manter as marcas do tempo, as camadas de intervenções acumuladas ao longo dos séculos e a ambiência natural que compõe a paisagem do entorno, assegurando que o passado siga presente como parte viva da memória coletiva.
Na remoção dos escombros foram encontrados diversos objetos históricos que ajudaram a reconstituir o cotidiano e o passado da igreja, como puxadores de ferro, vidros de remédio, louças, azulejos, um castiçal, copos de vidro e até um ornamento fúnebre em ferro fundido, representando uma ampulheta com asas, símbolo clássico da passagem do tempo.
Os principais serviços executados foram limpeza da vegetação invasora, embrechamentos para reforço de alvenarias comprometidas, utilizando materiais compatíveis com os originais; o tratamento de trincas; e a limpeza das superfícies, que removeu sujidades acumuladas e permitiu revelar o estado real das estruturas remanescentes.
Durante o andamento da obra, foram necessárias adequações e novas medidas técnicas, como a instalação de telhas cerâmicas no topo das paredes, a fim de reduzir riscos de infiltração, e a aplicação de removedores de lodo. Um dos pontos críticos foi a desmontagem e reconstrução de um trecho de alvenaria em risco de colapso, incluindo o arco do vão da porta principal, o que devolveu estabilidade estrutural e harmonia estética ao conjunto.
Foram instaladas estruturas metálicas em aço patinável (corten) nas ruínas da igreja. No mirante, a estrutura remete ao antigo coro da igreja e inclui uma escada lateral, permitindo a visitação e a contemplação da paisagem. No altar, a volumetria original será respeitada, com o objetivo de recuperar a ambiência da edificação histórica.
Também foi implantado o Sistema de Proteção contra Descargas Atmosféricas (SPDA) e definidos os pontos de luminárias externas, que irão valorizar a iluminação cênica do conjunto arquitetônico.
Além da consolidação e preservação das ruínas da igreja, o projeto inclui a implantação do Centro Comunitário Cachoeiras de Macacu em seu entorno imediato. Respeitando a topografia do terreno e preservando a vegetação existente, o futuro espaço comunitário foi concebido para uso coletivo e deverá abrigar exposições, oficinas de artesanato, atividades educativas e celebrações comunitárias, devolvendo vitalidade a uma área que por muitos anos permaneceu abandonada. A ideia principal do projeto é promover um diálogo entre diferentes tempos históricos – das ruínas coloniais às novas estruturas contemporâneas – conectando objetos, memórias e materiais. Ao mesmo tempo, busca estimular a convivência entre moradores, visitantes e turistas, contribuindo para a valorização do patrimônio cultural e para o desenvolvimento sustentável de Cachoeiras de Macacu.
Ficha técnica
Localização: Cachoeiras de Macacu (RJ)
Período de restauração: Janeiro/2025 a junho/2026
Data de construção: 1758
Proteções existentes: Estadual
Obras de restauração: Arquitetônica
Registro fotográfico: Bruno Barreto
