MASP – Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand
Histórico do Monumento
O projeto arquitetônico do Masp, construído em 1968, é da modernista Lina Bo Bardi, uma das arquitetas mais emblemáticas do século XX na América Latina, que também se destacou como grande pensadora por unir o moderno ao popular. Natural de Roma, na Itália, aos 32 anos Lina mudou-se para São Paulo, onde veio a se naturalizar brasileira e morou até o fim da vida. Com uma história marcada pela política, antropologia e vanguarda do pensamento e das artes, Bo Bardi era apaixonada pelo Brasil e se preocupava não só com o cenário político, mas com a influência da arquitetura no convívio e no cotidiano das pessoas. Por isso, suas obras expressam a crença da artista de que projetos não eram só construções, mas também poesia e serviço coletivo.
O projeto estrutural é do respeitado engenheiro paulista José Carlos de Figueiredo Ferraz, que tem entre seus principais feitos sua participação na comissão executiva das obras da cobertura pênsil da Exposição Internacional do Rio de Janeiro, a maior área coberta e sem colunas do mundo, com 32 mil metros quadrados.
Considerado um dos mais importantes exemplares da arquitetura brutalista moderna no Brasil, o Masp carrega um estilo arquitetônico bastante peculiar, caracterizado pelo uso expressivo do concreto com formas geométricas e ausência de ornamentação. O estilo béton brut, que em francês significa justamente concreto aparente, surgiu na década de 1950 e se popularizou nas décadas seguintes. Toda a construção foi executada em concreto aparente, com o prisma puro sustentado por pórticos destacados pela cor vermelha.
A estrutura apresenta rica gama de detalhes, como a textura aparente dos pórticos em fôrmas emparelhadas e com marcação de tábuas em madeira, que é uma das marcas a serem preservadas. As vigas, implantadas no sentido paralelo à Avenida Paulista, foram realizadas pelo sistema de concreto protendido. O vão livre de 70 metros, popularmente conhecido como “vão do MASP’’, é considerado um respiro no eixo verticalizado da Paulista e espaço histórico de diversas manifestações políticas e culturais.
O edifício foi tombado pelo Iphan, pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo (Condephaat) e pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (Conpresp).
Em 26 de novembro de 2024, foi concluída a construção do segundo edifício do Museu de Arte de São Paulo (MASP), batizado como Edifício Pietro Maria Bardi. Com 14 andares, a nova estrutura representa um marco no crescimento da instituição, dobrando sua área total e ampliando significativamente os espaços expositivos, multiuso e os serviços voltados à educação e à conservação de acervo.
Projetado pelo escritório Metro Arquitetos Associados, o novo edifício reafirma o compromisso do MASP com a arte e a cultura em constante diálogo com o tempo presente. Nesta nova fase, a Biapó, que já havia atuado no restauro do edifício original a partir de 2023, foi novamente contratada, agora para executar as obras de desativação do auditório pequeno e retrofit do espaço, com vistas à futura implantação do túnel de ligação entre os dois edifícios.
O Restauro
O MASP – Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand desenvolveu o maior projeto de preservação já realizado em seu edifício histórico. Embora as adequações às normativas de segurança tenham iniciado em 2015, esta foi a primeira etapa cujos olhares foram direcionados para os famosos pilares e vigas vermelhos, desenhados por Lina Bo Bardi em 1968.
Todo o procedimento foi rigorosamente documentado em fichas técnicas, servindo como referência para garantir a precisão e a qualidade nos serviços realizados. Durante o processo, foi necessário desenvolver novos tons de argamassa para recompor adequadamente o substrato, respeitando a estética original. Foram preservadas as características marcantes dos pórticos, como a textura do concreto, resultado das fôrmas de madeira emparelhadas e marcadas, evidenciando a riqueza de detalhes e o compromisso com a autenticidade do patrimônio.
O processo de recuperação estrutural iniciou com o mapeamento de danos no concreto para identificar os locais de armadura exposta, o que só foi possível após a decapagem. Depois desse procedimento, foram executados a abertura da estrutura danificada, o tratamento do aço e o fechamento das janelas com argamassa — esse acabamento exigiu respeito à marcação de formas originalmente feitas com tábuas de madeira, em virtude da técnica utilizada na época da construção. O nível acabado das janelas de recuperação, alinhado ao concreto existente e à cor, foi também um requisito importante para garantir uma restauração harmônica.
Para recuperação das vigas, um carro funcional, movido sobre trilhos, foi idealizado pela equipe técnica da Biapó para permitir o transporte de funcionários, ferramentas e equipamentos na estrutura entre as vigas menores da cobertura, possibilitando o andamento do processo de remoção da camada de impermeabilização existente, sem danificar ou exigir esforços diretos na laje, e garantindo a proteção de cobertura provisória, conforme solicitação do contratante.
A impermeabilização e a pintura foram realizadas após a recomposição de aço e a aplicação das argamassas e de produtos inibidores e convertedores de corrosão. A especificação da tinta e sua tonalidade de cor foram definidas em análise conjunta com os órgãos de preservação.
Juntamente ao restauro e da pintura dos pórticos, estava previsto a recuperação emergencial das gárgulas da cobertura, um serviço essencial devido ao estado crítico de conservação em que se encontravam. Era perceptível o processo de corrosão avançado e o desprendimento do concreto. O trabalho foi importante tanto para melhorar a estrutura como garantir a segurança dos transeuntes, pois são elementos que margeiam a área do espelho d’água do museu e as calçadas da Paulista. O restauro seguiu a mesma metodologia desenvolvida para o tratamento do
concreto dos pórticos.
A restauração dos pórticos (vigas e pilares) viabilizou um sistema de pintura e impermeabilização completamente novo para garantir sua estanqueidade. Isso se deu como resultado de testes em campo de todos os processos na etapa de pré obra, que procederam na elaboração de fichas técnicas, cuja utilização junto ao caderno técnico do projeto de recuperação e restauro definiu a metodologia para devida execução dos serviços. O restauro de vigas e pilares contou com apoio dos patrocinadores Master Citi e AkzoNobel.
Para cada etapa de restauro e aplicação de diferentes materiais, foram realizados diversos testes ao longo de toda obra. Testes de bancada foram importantes para encontrar tonalidades diversas nas argamassas por causa da heterogeneidade do concreto, por exemplo, principalmente após a remoção de toda pintura existente.
Iniciada em outubro de 2024, em paralelo com a obra dos pórticos, o restauro da laje do vão livre e da escada de acesso ao primeiro pavimento do MASP seguiu o mesmo método desenvolvido para tratamento do concreto dos pórticos e das gárgulas. Entretanto, novos testes em campo foram necessários para adequação às diferentes tonalidades e texturas existentes nessas estruturas.
Diferente dos pórticos, as lajes e as escadas são aparentes, sem pintura existente, e permanecerão assim após o processo de restauração para preservar os requisitos em respeito à gama de cores e texturas existentes, sem impactar nas características da estrutura atual. Ao final do processo de restauro do concreto, será aplicado um material hidrofugante para garantir uma proteção prolongada em toda a estrutura.
As obras tiveram início com a remoção completa da infraestrutura antiga, incluindo carpetes, portas, mobiliários e sistemas elétricos obsoletos, além da demolição do piso e escavação do terreno para nivelamento e preparação da base para o novo piso. Os revestimentos de argamassa das paredes também foram retirados, abrindo caminho para as novas intervenções.
A restauração dos elementos remanescentes, como paredes, lajes e vigas, seguiu as mesmas diretrizes técnicas previamente adotadas no projeto de restauro do MASP, com especial atenção à preservação do concreto aparente, um dos ícones do edifício original projetado por Lina Bo Bardi. Com mais de 50 anos de existência, o concreto exige cuidados específicos para garantir sua integridade com intervenções mínimas e o máximo respeito à materialidade original.
A principal etapa do processo de recuperação estrutural foi o mapeamento das patologias presentes nas superfícies, seguido da abertura de janelas de inspeção para análise do estado das armaduras internas. Quando identificadas áreas com corrosão e desplacamento, geralmente causados pela expansão do aço oxidado, foi realizado o apicoamento e escarificação do concreto, técnicas que expõem o agregado e preparam a superfície para restauração.
Em seguida, as armaduras corroídas foram lixadas e tratadas quimicamente, conforme especificações da equipe de projetos do museu. As janelas abertas foram então recompostas com argamassa estrutural utilizando métodos que asseguram a uniformidade visual e estrutural com as áreas originais não afetadas. Nas regiões que apresentavam apenas alta porosidade, sem comprometimento da armadura, foi aplicada a técnica do estucamento, um processo de baixa intervenção que funciona como uma proteção superficial contra a penetração de umidade e o surgimento de novas patologias, preservando a durabilidade do concreto aparente.
Foi executada uma instalação da infraestrutura para o novo sistema elétrico e demais sistemas especiais, e foi feito o piso e o balcão em concreto para área de recepção, seguido da instalação dos elementos metálicos, como corrimãos e anteparo. Por fim, foi realizada a pintura das paredes e do teto na cor branca, promovendo a integração visual com a recepção já existente.
Após a inauguração do edifício Pietro Maria Bardi, anexo do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (MASP), a Construtora Biapó iniciou a execução de um espaço de acolhimento na interligação entre os dois edifícios: o edifício histórico Lina Bo Bardi e o edifício anexo Pietro Maria Bardi.
Nessa última etapa, iniciada em maio de 2025, houve adaptação do antigo auditório do edifício histórico. O espaço foi desativado e passou por um processo de retrofit para se transformar na área de acolhimento do túnel que conecta os dois prédios, criando uma circulação integrada entre os diferentes ambientes do museu.
O trabalho começou com a remoção de toda a infraestrutura e das instalações antigas existentes na área destinada ao acolhimento do túnel. Essa etapa incluiu a retirada de carpetes, portas, mobiliários, sistemas elétricos e especiais já obsoletos. A demolição do piso e de uma parede existente foi realizada de forma controlada. Durante o processo, foi identificada uma laje que serve como cobertura da cabine de barramento do museu. Esse elemento passou por reforço estrutural para garantir sua integridade. O novo piso executado, em concreto com agregado aparente, foi uma etapa de serviço importante, gerenciada pela Construtora Biapó e executada por uma empresa terceirizada. Paralelamente, foi executada a recuperação estrutural da parede de contenção do túnel, seguindo os parâmetros estabelecidos nas fichas de restauro e nas metodologias aplicadas anteriormente na restauração dos pórticos e na laje do vão livre do edifício Lina.
Na parte interna do túnel, que está em fase final de construção por uma empresa terceira, para viabilizar a recuperação estrutural da parede de contenção, que faz parte do escopo da obra do acolhimento pela Biapó, foram instaladas torres metálicas para escoramento da laje do túnel durante a recuperação da parede, atendendo a recomendação da equipe de engenharia do MASP. As torres foram desmontadas após a recuperação integral da parede de contenção do túnel.
Na etapa de demolição das estruturas do antigo auditório, além do antigo piso em concreto, foi realizada a demolição de uma parede entre o auditório e a recepção existente do MASP, pois a parede demolida não possuía função estrutural, o que permitiu ampliar a área de recepção do museu e melhorar a organização do espaço de acesso ao novo percurso subterrâneo.
Nos elementos arquitetônicos que permaneceram no projeto de retrofit, especialmente lajes e vigas em concreto aparente, foram adotadas técnicas de conservação compatíveis com as características do material e com a idade da construção, que já ultrapassa cinco décadas. O princípio adotado foi o de intervir o mínimo possível, garantindo a preservação da materialidade original. Para isso, foi realizado um mapeamento detalhado do estado de conservação da laje, identificando patologias, fissuras e outros pontos que demandavam intervenção.
Na etapa de restauro do concreto, o processo começou com a limpeza das superfícies e remoção de manchas utilizando escovas de aço, seguida pela retirada do pó com esponja úmida e lavagem da área. Em pontos onde as manchas no concreto se mostravam muito evidentes, foi necessário aplicar pigmentação composta por pó xadrez utilizada para suavizar o contraste de manchas claras surgidas após a limpeza e reduzir seu impacto visual.
Em seguida, foram realizados cortes pontuais no concreto nas áreas previamente indicadas pelo mapeamento técnico, permitindo a exposição das armaduras metálicas para o tratamento adequado contra corrosão. Após essa etapa, foi feita a recomposição do substrato com argamassa de reparo estrutural aplicada em camadas.
No caso das vigas, a equipe identificou que diversos reparos haviam sido executados de forma desordenada em intervenções anteriores. Apesar disso, esses reparos ainda cumpriam a função estrutural de proteção das armaduras. Caso fossem totalmente refeitos, haveria risco de perda estética do conjunto. Assim, após discussão com especialistas em arquitetura e engenharia da obra, decidiu-se manter essas intervenções antigas, evitando um grau maior de intervenção no elemento original.
Já a argamassa de acabamento existente nas paredes apresentava condições precárias de conservação e, por isso, foi integralmente removida para recomposição integral, que seguiu a paginação de tábuas executadas de forma dinâmica, com acabamento sarrafeado para textura mais rústica e natural, próxima ao aspecto do concreto, mantendo a referência das texturas existentes nas paredes do MASP.
No que se refere à infraestrutura elétrica, os eletrodutos da área de acolhimento foram instalados em valas no solo, posicionados abaixo das camadas de concreto. O sistema de iluminação segue o mesmo padrão adotado na recepção do museu, com trilhos que integram o conjunto de iluminação existente no edifício. A intensidade luminosa das lâmpadas poderá ser controlada pela equipe do MASP, permitindo ajustes de acordo com as necessidades de uso do espaço.
Por fim, a pintura do ambiente também seguiu o padrão já adotado nas áreas internas do museu. Após a restauração e recuperação estrutural das lajes e vigas, bem como a recomposição das argamassas, as superfícies receberam aplicação de fundo preparador e três demãos de tinta de acabamento na tonalidade branco neve fosco, garantindo uniformidade visual e integração com os demais ambientes do museu.
Com essa etapa de obras, o museu avança na consolidação de seu projeto de expansão e integração espacial, ampliando a circulação entre os edifícios e oferecendo ao público uma experiência de visita mais fluida, inclusiva e conectada.
Ficha técnica
Localização: São Paulo (SP)
Período de restauração: Outubro/2023 a dezembro/2025
Data de construção: 1968
Projeto: Lina Bo Bardi
Proteções existentes: Municipal, estadual e federal
Obras de restauração: Estrutural e arquitetônica
Registro fotográfico: Pedro Truffi
