Centro Cultural Banco do Brasil . Luminárias, pisos e portas
Histórico do Monumento
Inaugurado como sede da Associação Comercial do Rio de Janeiro, em 1906, sua rotunda abrigou o pregão da Bolsa de Fundos Públicos. Na década de 1920, passou a pertencer ao Banco do Brasil, que realizou uma reforma para abertura de sua sede. No final da década de 1980, resgatando o valor simbólico e arquitetônico do prédio, o Banco do Brasil decidiu pela sua preservação ao transformá-lo em um centro cultural. O projeto de adaptação preservou o requinte das colunas, dos ornamentos, do mármore que sobe do foyer pelas escadarias e retrabalhou a cúpula sobre a rotunda, valorizando e preservando os diversos estilos presentes na edificação: o neoclássico, presente na rotunda e em suas colunas ornamentadas com a ordem jônica, o art nouveau encontrado nas janelas externas e o art déco presente na porta da entrada da Rua Primeiro de Março, no lustre em frente à bilheteria e nas portas do Teatro I. Já foram mais de 2.450 projetos nas áreas de artes visuais, cinema, teatro, dança, música e pensamento realizados durante sua trajetória. Por conta destes feitos, desde 2011, o Brasil foi incluído no ranking anual do jornal britânico The Art Newspaper, posicionando o Rio de Janeiro entre as cidades com as mostras de arte mais visitadas do mundo. Além disso, o edifício possui biblioteca, arquivo histórico e o Museu Banco do Brasil.
O Restauro
A restauração de luminárias, portas e pisos no prédio do Centro Cultural Banco do Brasil Rio de Janeiro (CCBB RJ) reuniu uma série de particularidades técnicas e operacionais que tornaram a obra especialmente desafiadora. Todas as etapas do trabalho foram realizadas com o edifício aberto ao público, um dos centros culturais mais visitados do país, registrando um fluxo médio diário superior a 5 mil visitantes em alguns meses de 2025, o que reforçou a importância de um planejamento rigoroso e de treinamentos específicos para que a equipe executasse cada etapa com segurança, organização e qualidade.
Desde a concepção do projeto até a execução das intervenções, mulheres ocuparam posições centrais e estratégicas, atuando como arquitetas, engenheiras, restauradoras, historiadoras, arqueólogas, conservadoras, técnicas especializadas e gestoras. Sua participação foi decisiva no planejamento, na pesquisa histórica, na definição das metodologias de intervenção, no acompanhamento diário da obra e na execução minuciosa dos serviços, reafirmando o protagonismo feminino em um campo tradicionalmente marcado pela predominância masculina.
Os trabalhos começaram pelo piso do térreo, onde foi realizado um processo minucioso de substituição das placas danificadas e instalação de novas peças. O serviço incluiu ainda recomposição das superfícies, aplicação de rejuntes, obturação do mármore branco e do lioz amarelo, além de limpeza especializada para remoção de manchas e oxidação. Ao final, foi aplicada uma camada protetiva para preservar os materiais e garantir maior durabilidade. O trabalho incluiu uma variedade de itens que abrangeram quase mil metros quadrados de piso em mármore raro, como o Carrara, o brasileiro e o lioz português.
A restauração das portas e caixonetes em madeira também seguiram um processo detalhado e cuidadoso. As etapas incluíram isolamento dos vãos, retirada das portas e ferragens, decapagem mecânica das camadas de pintura acumuladas ao longo do tempo e testes de solvência para identificar os tratamentos adequados. Em seguida, foram realizados serviços de limpeza química superficial, clareamento de áreas com queimaduras e fixação de partes soltas ou substituídas. Pequenas perdas foram preenchidas por obturação, enquanto danos mais profundos receberam enxertia em madeira. O processo foi finalizado com nivelamento das superfícies, revisão e limpeza das ferragens, com substituição quando necessário, e aplicação de verniz protetivo.
Um dos destaques foi o trabalho desenvolvido no conjunto de lustres e luminárias históricas do edifício, elementos fundamentais para a leitura estética e simbólica dos ambientes do CCBB, totalizando cerca de 230 peças restauradas. Cada lustre ou pendente possui mais de 8 mil peças de cristal, organizadas em colares de contas ou em amarrações clássicas com alfinetes, que unem manualmente cada elemento da composição. Foi realizado um trabalho artesanal de grande precisão, no qual cada cristal foi recolocado individualmente, respeitando o desenho original das luminárias. Para garantir maior resistência e durabilidade, foram utilizadas ligas metálicas mais robustas na remontagem.
Essas peças de iluminação (de diferentes tamanhos, formas e estilos) desempenham papel fundamental na ambientação dos espaços internos do CCBB RJ. Algumas oferecem iluminação mais focada e discreta, enquanto outras formam conjuntos exuberantes, compostos por dezenas de lâmpadas e correntes de elos brilhantes que se movimentam suavemente ao toque. Há ainda modelos com braços alongados que remetem a candelabros clássicos, além de estruturas robustas em ferro e bronze sustentadas por cabos de aço.
Foram restaurados lustres monumentais e luminárias decorativas originais que apresentavam sujidades acumuladas, oxidação, perdas de componentes, falhas estruturais e inadequações decorrentes de intervenções anteriores. O processo envolveu desmontagem criteriosa, limpeza mecânica e química controlada, consolidação de partes frágeis, recomposição pontual de elementos ausentes, tratamento anticorrosivo e reintegração cromática, respeitando os princípios da reversibilidade e da mínima intervenção. Paralelamente, foi desenvolvido um projeto luminotécnico que conciliou a preservação das características originais das peças com a atualização tecnológica necessária ao uso contemporâneo do edifício.
As equipes femininas também atuaram na adaptação dos sistemas elétricos e na incorporação de novas fontes de luz, com foco em eficiência energética, segurança, controle térmico e valorização da arquitetura e dos elementos decorativos, sem comprometer a integridade histórica dos lustres e luminárias. Esse trabalho evidenciou a combinação entre precisão técnica, sensibilidade estética e domínio conceitual, atributos fundamentais para a preservação de bens culturais. Além disso, foram restauradas esquadrias de madeira de lei de grandes dimensões.
Ficha técnica
Localização: Rio de Janeiro (RJ)
Período de restauração: Agosto/2024 a abril/2026
Data de construção: 1906
Projeto: Francisco Joaquim Béthencourt da Silva
Proteções existentes: Municipal e federal
Obras de restauração: Arquitetônica
Registro fotográfico: Marcos Reis
